terça-feira, 16 de março de 2010

(Um) Diário de Maria

Hoje, mencionei estes papéis desorganizados que me são tão queridos ao Tio Jorge. Quero partilhar com ele as minhas escritas patrióticas, os meus desejos e sonhos profundos que vou transpondo para estes papéis. Coisas soltas que o meu coração não consegue manter fechadas. Por vezes, solta-as em diálogos familiares! Contudo, tenho tentado controlá-lo, pois sempre que expresso o meu amor ao nosso honrado rei D. Sebastião, minha mãe fica sobressaltada, como se com o regresso do nosso santo rei voltasse a desgraça!
Não compreendo, na verdade. Meus pais, tão bons Portugueses, não acreditam que o rei não morreu, e que voltará num dia de névoa cerrada? Ainda dizem ser quimeras, esta crença legítima de quem ama o seu país?
Pressinto algo estranho por detrás disto. Nem o meu bom Telmo conversa mais comigo acerca desses assuntos. Minha senhora mãe o proibiu, decerto. Apenas me resta saber o porquê.
Bem, devo terminar este escrito, pois tenho de juntar as minhas coisas, os meus livros, para a partida. Meu pai, português dos verdadeiros, afrontará os tiranos que pretendem invadir a nossa casa. Livrar-se, assim, de tudo o que é seu, em nome da sua pátria! Quanto honrada me sinto em ser sua filha. Que se aprenda em Portugal, como um homem de honra e coração, por mais poderosa que seja a tirania, sempre lhe pode resistir, em perdendo o amor a coisas tão vis e precárias como os haveres que possuímos. Estas coisas materiais desaparecem, viram cinzas e ninguém sente a sua falta. Agora, valores, ideais, honra? Nada os consegue destruir.
Terei mesmo de finalizar este manuscrito, sinto-me esgotada. Todo este entusiasmo fatigou o meu corpo. A minha alma terá de acalmar o fogo que a consome, para que o meu corpo, cada vez mais franzino, devo acrescentar, descanse.

Maria de Noronha

Eu ouço coisas, melhor do que nunca. Bem sei o que se passa, tento encobri-lo perante minha mãe, que tem vivido aterrada, desde que chegamos a esta maldita casa. Bem sei que pertence ao homem daquele retrato, ao lado da imagem do nosso santo rei e doutra, do ilustre poeta Camões cujos livros leio com o meu bom Telmo. Desconheço o nome e a figura de tal homem, cuja face aterroriza minha mãe.
Defronte dela, poupo os agouros e presságios, mas não posso negar saber que a desgraça se irá abater sob a minha família. Mas porque ninguém fala comigo? Tenho de confirmar tais certezas, pois posso apenas estar iludida, inventando histórias e enredos, como nos livros de cavalarias cuja leitura tanto me apraz. Telmo… Telmo é a minha resposta.
E que lindo retrato do meu bom rei D. Sebastião, que linda figura! Com certeza mantém o seu ar distinto, lá na longínqua África. Não há guerra que destrua tanta dignidade.
Maria de Noronha

Telmo mente-me, contorna as perguntas que lhe faço. E ainda engana-me, dizendo que conta toda a verdade. Talvez não precise de mais nada para confirmar que é esse homem, retratado naquela sala, o terror de minha mãe. “O outro”, como ela o chama, será, de algum modo, a morte desta família. Perdi o apetite.
Maria de Noronha

Ai meu querido pai! Agradeço-vos tanto por, finalmente, falares comigo. Eu sabia, sabia de um saber cá de dentro, bem mo dizia o coração. D. João de Portugal, “o outro”, ficou na batalha de Alcácer Quibir, que pena! Mas se ele viesse, não existiria eu, agora, e não poderia ser a menina de treze anos mais amada em todo Portugal. Todos me escondiam factos, para me proteger da desgraça. Ficar-lhes-ei, para todo sempre, grata. Levarei para outra vida o amor do meu pai, minha mãe e do meu bom amigo Telmo e apenas isso me aconchegará no leito, quando chegar a hora. A ilusão foi, até hoje, uma redoma invisível que me protegia, porém, agora, os seus cuidados e o seu amor, são o meu amparo.
Este sangue em chamas que me consome as veias não me promete muito mais tempo. Espero, pelo menos, que seja suficiente para assistir ao regresso de D. Sebastião e à vitória do meu Portugal!
Vou-me deitar, com o desejo de amanhã não ver aflita minha mãe, e sonhar que a doença vá embora, porque Deus prefere que a maleita mate tiranos, do que dar tamanho desgosto a uma família de verdadeiros Portugueses.
Maria de Noronha



11º H
Diogo Silva, nº 9
João Queirós, nº 13
Letícia Teixeira, nº 18
Margarida Ruela, nº20
Mário André Marques, nº21

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