Hoje, mencionei estes papéis desorganizados que me são tão queridos ao Tio Jorge. Quero partilhar com ele as minhas escritas patrióticas, os meus desejos e sonhos profundos que vou transpondo para estes papéis. Coisas soltas que o meu coração não consegue manter fechadas. Por vezes, solta-as em diálogos familiares! Contudo, tenho tentado controlá-lo, pois sempre que expresso o meu amor ao nosso honrado rei D. Sebastião, minha mãe fica sobressaltada, como se com o regresso do nosso santo rei voltasse a desgraça!
Não compreendo, na verdade. Meus pais, tão bons Portugueses, não acreditam que o rei não morreu, e que voltará num dia de névoa cerrada? Ainda dizem ser quimeras, esta crença legítima de quem ama o seu país?
Pressinto algo estranho por detrás disto. Nem o meu bom Telmo conversa mais comigo acerca desses assuntos. Minha senhora mãe o proibiu, decerto. Apenas me resta saber o porquê.
Bem, devo terminar este escrito, pois tenho de juntar as minhas coisas, os meus livros, para a partida. Meu pai, português dos verdadeiros, afrontará os tiranos que pretendem invadir a nossa casa. Livrar-se, assim, de tudo o que é seu, em nome da sua pátria! Quanto honrada me sinto em ser sua filha. Que se aprenda em Portugal, como um homem de honra e coração, por mais poderosa que seja a tirania, sempre lhe pode resistir, em perdendo o amor a coisas tão vis e precárias como os haveres que possuímos. Estas coisas materiais desaparecem, viram cinzas e ninguém sente a sua falta. Agora, valores, ideais, honra? Nada os consegue destruir.
Terei mesmo de finalizar este manuscrito, sinto-me esgotada. Todo este entusiasmo fatigou o meu corpo. A minha alma terá de acalmar o fogo que a consome, para que o meu corpo, cada vez mais franzino, devo acrescentar, descanse.
Maria de Noronha
Eu ouço coisas, melhor do que nunca. Bem sei o que se passa, tento encobri-lo perante minha mãe, que tem vivido aterrada, desde que chegamos a esta maldita casa. Bem sei que pertence ao homem daquele retrato, ao lado da imagem do nosso santo rei e doutra, do ilustre poeta Camões cujos livros leio com o meu bom Telmo. Desconheço o nome e a figura de tal homem, cuja face aterroriza minha mãe.
Defronte dela, poupo os agouros e presságios, mas não posso negar saber que a desgraça se irá abater sob a minha família. Mas porque ninguém fala comigo? Tenho de confirmar tais certezas, pois posso apenas estar iludida, inventando histórias e enredos, como nos livros de cavalarias cuja leitura tanto me apraz. Telmo… Telmo é a minha resposta.
E que lindo retrato do meu bom rei D. Sebastião, que linda figura! Com certeza mantém o seu ar distinto, lá na longínqua África. Não há guerra que destrua tanta dignidade.
Maria de Noronha
Telmo mente-me, contorna as perguntas que lhe faço. E ainda engana-me, dizendo que conta toda a verdade. Talvez não precise de mais nada para confirmar que é esse homem, retratado naquela sala, o terror de minha mãe. “O outro”, como ela o chama, será, de algum modo, a morte desta família. Perdi o apetite.
Maria de Noronha
Ai meu querido pai! Agradeço-vos tanto por, finalmente, falares comigo. Eu sabia, sabia de um saber cá de dentro, bem mo dizia o coração. D. João de Portugal, “o outro”, ficou na batalha de Alcácer Quibir, que pena! Mas se ele viesse, não existiria eu, agora, e não poderia ser a menina de treze anos mais amada em todo Portugal. Todos me escondiam factos, para me proteger da desgraça. Ficar-lhes-ei, para todo sempre, grata. Levarei para outra vida o amor do meu pai, minha mãe e do meu bom amigo Telmo e apenas isso me aconchegará no leito, quando chegar a hora. A ilusão foi, até hoje, uma redoma invisível que me protegia, porém, agora, os seus cuidados e o seu amor, são o meu amparo.
Este sangue em chamas que me consome as veias não me promete muito mais tempo. Espero, pelo menos, que seja suficiente para assistir ao regresso de D. Sebastião e à vitória do meu Portugal!
Vou-me deitar, com o desejo de amanhã não ver aflita minha mãe, e sonhar que a doença vá embora, porque Deus prefere que a maleita mate tiranos, do que dar tamanho desgosto a uma família de verdadeiros Portugueses.
Maria de Noronha
11º H
Diogo Silva, nº 9
João Queirós, nº 13
Letícia Teixeira, nº 18
Margarida Ruela, nº20
Mário André Marques, nº21